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Cassandra, você está fora da realidade!

7 de out.
13 min de leitura

No ano de 1840, quando os restos mortais de Napoleão retornaram à França, cerca de 13 ou 14 indivíduos foram admitidos no mesmo hospital psiquiátrico, em Bicêtre, afirmando ser o próprio imperador. Evidentemente, cada um deles considerava o outro louco. Trouxe este caso em Contágio Psíquico e o retomo aqui porque ele guarda, em miniatura, o problema que pretendo discutir: cada um daqueles homens habitava uma realidade inteira, coerente e incorrigível, e nenhum deles era capaz de admitir que houvesse outra. Vale lembrar o que dizem os manuais de psiquiatria: o intelecto e as emoções de quem delira costumam estar preservados, de forma que, se suas premissas fossem verdadeiras, seu discurso passaria quase por normal. Isso nos leva a uma constatação incômoda. O delírio não pode ser determinado por critérios sociais, já que os próprios critérios sociais podem estar delirantes.


Realidade, no fundo, é um delírio coletivo consensual. Isso significa que ela é maleável, manipulável, e só se torna real quando uma maioria concorda entre si. Precisamos, de antemão, distinguir a realidade do mundo. O mundo é aquilo que existe com ou sem a nossa concordância: o vírus, a órbita dos planetas, a enchente. A realidade é a versão do mundo que uma coletividade combina sustentar, e que ganha peso de pedra quando um número suficiente de pessoas olha na mesma direção e repete a mesma palavra. Por isso ela pode mudar de forma sem que o mundo mude de lugar. A caça às bruxas, considerada atualmente uma loucura coletiva, era vista em seu tempo como realidade e salvação.


Cassandra, análise da atualidade

Para compreender como esse acordo se forma, precisamos nos despir da noção de um ego individualista, que escolheria sozinho aquilo em que acredita. Jung, a partir de Lévy-Bruhl, chamou de participação mística o estado em que as fronteiras entre o eu e o outro se desfazem, e advertiu que ele não pertence somente aos povos antigos: basta a consciência tornar-se rebaixada para que retome a sua força. É nesse estado que um conteúdo do inconsciente coletivo eclode e possui indivíduos, grupos e nações inteiras. Em Presente e futuro, Jung descreve esse indivíduo dissolvido na massa, que troca o próprio juízo pela média estatística e pela palavra de ordem, e nos lembra que não temos defesa contra as epidemias psíquicas, mais devastadoras do que qualquer catástrofe natural.


Jean Baudrillard oferece outra chave de leitura para o mesmo fenômeno. Em Simulacros e Simulação, o autor aponta que, na era da simulação, o mapa precede o território: os signos do real substituem o real, e já não há como distinguir um do outro. Em À Sombra das Maiorias Silenciosas, acrescenta que a massa não busca sentido, busca espetáculo, e absorve todas as mensagens sem devolver nenhuma. Isso significa que o consenso que funda a realidade pode ser fabricado, e que quem domina a circulação das imagens domina também aquilo que será chamado de real. Ainda mais na era dos algoritmos, a arquitetura das plataformas privilegia o engajamento acima de tudo, de modo que uma rede social não pergunta o que é verdadeiro, pergunta o que retém, entregando a cada usuário a confirmação daquilo que ele já sente, mede o consenso em curtidas e o devolve multiplicado.


Por possuir essa maleabilidade, a realidade pode ser construída a partir de diversas bases. Há realidades erguidas sobre uma base emocional, em que é verdadeiro aquilo que alivia ou aquilo que assusta. Há as de base egoísta, em que é verdadeiro o que me favorece. Há as ideológicas, em que é verdadeiro o que confirma o meu lado. Há as concretivistas, que tomam o símbolo ao pé da letra e procuram o demônio no vizinho. E há as factuais, que submetem a crença ao teste, ao número e à possibilidade de estar errado. Vale a ressalva de que essas bases não são excludentes. A separação serve somente para uma compreensão pedagógica, pois uma mesma realidade costuma misturar várias delas.


A realidade factual tem a seu favor o mundo, que cedo ou tarde cobra a conta. Tem contra si a lentidão, a dúvida metódica, a falta de inimigo e de promessa. As outras oferecem aquilo de que o ser humano mais necessita, o vínculo e o pertencimento, e os oferecem de imediato. O Brasil das últimas décadas é um grande exemplo dessa disputa, pois nele duas realidades cresceram lado a lado, construídas com materiais opostos.


Existe um Brasil que fez os fatos o seu alicerce. É o país dos institutos nascidos na virada do século XX, Manguinhos em 1900 e Butantan em 1901, fundados para enfrentar a peste bubônica. É o país que aprendeu cedo, na Revolta da Vacina de 1904, que o fato imposto sem mediação simbólica encontra barricada. É o país que registrou o último caso de varíola em 1971, criou o Programa Nacional de Imunizações em 1973 e viu o último caso de poliomielite em 1989. É também o país da Embrapa, que desde 1973 faz agricultura tropical com ciência, e do SUS, inscrito na Constituição de 1988.


A ciência também é um consenso e, portanto, não escapa à definição proposta aqui. O que a distingue é a natureza do pacto: seus membros combinam de antemão que qualquer um pode ser desmentido pelo mundo, e que a autoridade de quem fala vale menos do que o experimento que outro pode repetir. É um delírio com cláusula de correção, um consenso que guarda lugar para a dúvida. Por isso mesmo exige tanto de quem o habita. Jung compreendia a consciência como uma aquisição tardia e frágil, sempre pronta a ceder quando o afeto sobe e o nível mental baixa. Sustentar a dúvida, suportar o não saber e mudar de ideia diante do dado são trabalhos do indivíduo, em seu papel idiossincrático, e não da massa.


O Brasil mostrou do que era capaz em 2020. Dois dias depois da confirmação do primeiro caso de COVID-19, pesquisadoras brasileiras já tinham sequenciado o genoma do vírus que circulava aqui. Em 17 de janeiro de 2021, uma enfermeira recebeu em São Paulo a primeira dose da vacina trazida ao país pelo Butantan. No primeiro trimestre de 2023, segundo o IBGE, 93,9% dos brasileiros com cinco anos ou mais tinham tomado ao menos uma dose.


Fora do posto de saúde, o retrato é outro. A pesquisa de percepção pública da ciência do CGEE encontrou, em 2023, um país em que só 17,9% sabiam citar uma instituição de pesquisa e 9,6% lembravam o nome de um cientista. O Indicador de Alfabetismo Funcional de 2024 encontrou 29% de analfabetos funcionais e apenas 10% no nível proficiente, o mais alto da escala, proporção que quase não se move desde 2001. Isso significa que aquele que lê o gráfico, confere a fonte e muda de ideia diante do dado pertence a uma faixa estreita do país.


No mesmo período, outro Brasil construiu a sua realidade a partir de outra base. Os evangélicos eram 6,6% da população em 1980, passaram a 21,6% em 2010 e chegaram a 26,9% em 2022, ou 47,4 milhões de pessoas, segundo o Censo. Vale aqui uma ressalva importante. Não é da fé que falo. A experiência religiosa é, para Jung, uma necessidade da alma e uma das funções mais altas da psique, e há no próprio campo evangélico pastores que suspenderam os cultos presenciais por mais de um ano para proteger a vida de suas comunidades. Refiro-me a uma máquina específica, de matriz neopentecostal, que fundiu púlpito, emissora, bancada parlamentar e rede social, e que adicionou à base religiosa emoções como o pânico, a ameaça e o ódio.


Em Presente e futuro, o autor separa a religião, relação viva do indivíduo com algo que o ultrapassa, da confissão, que é um credo coletivo, assunto deste mundo, capaz de massificar tanto quanto o Estado. A primeira protege o indivíduo da dissolução na massa. A segunda o entrega a ela com a consciência tranquila, pois lhe dá a certeza de estar do lado de Deus. Somos constantemente ameaçados pelo perigo totalitário das instituições que promovem a massificação, seja esse totalitarismo proveniente da religião, do Estado ou do capitalismo.


A doutrina que organiza essa máquina chama-se batalha espiritual. Nela, o adversário não erra, está possuído, e o mal deixa de ser uma condição humana a ser elaborada para se tornar um território a ser retomado. Em 12 de outubro de 1995, um bispo chutou, diante das câmeras de televisão, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Terreiros de umbanda e candomblé foram invadidos e depredados sob a mesma lógica.


Estamos diante do concretivismo, ou da literalização, em estado puro. O símbolo, que deveria ligar o ser humano àquilo que ele desconhece em si mesmo, é tomado ao pé da letra e ganha endereço. O demônio deixa de ser uma imagem da própria Sombra e passa a morar no terreiro, na escola, no partido, no corpo do outro. A projeção alivia, pois quem expulsa o mal para fora fica dispensado de encontrá-lo dentro. Não à toa a palavra pânico guarda o nome de um deus. Como venho defendendo, se não dermos um templo a Pan, ele sairá dançando, possuindo a humanidade sem que ela sequer perceba.


A história política recente do país é a história desse afeto em possessão. Em 2011, a pressão da bancada religiosa derrubou um material escolar contra a homofobia e o rebatizou de “kit gay”. Em 2018, o boato de que o governo o distribuía a crianças atravessou o WhatsApp, e o TSE mandou remover seis vídeos em que Jair Bolsonaro repetia a informação falsa. Naquele segundo turno, quase sete em cada dez evangélicos declaravam voto nele, segundo o Datafolha.


Baudrillard nos ajuda a entender por que o desmentido chega sempre atrasado. Na hiper-realidade, o falso não se opõe ao verdadeiro: concorre com ele no mesmo mercado de signos, e ganha quem circula mais. O boato e a checagem viajam pelo mesmo canal, com a diferença de que o boato carrega afeto e a checagem carrega uma nota de rodapé. Cada correção repete a imagem que pretende apagar e a devolve ao circuito. Assim como qualquer caso de projeção, as fake news podem ser tão reais quanto os óvnis, não importando aqui a ocorrência concreta, mas aquilo que emerge na psique coletiva e o contexto social que o propicia.


Em 25 de março de 2020, com o vírus já no país, um decreto presidencial incluiu as atividades religiosas entre os serviços essenciais. Em maio, o líder da Igreja Mundial do Poder de Deus anunciou sementes de feijão contra a COVID-19, por valores de R$ 100 a R$ 1.000, e o Ministério Público Federal pediu a retirada dos vídeos. Em abril de 2021, no dia em que o país batia o recorde diário de mortos, o STF precisou decidir, por 9 votos a 2, que governadores e prefeitos podiam suspender cultos e missas presenciais. O Brasil enterrou mais de 700 mil pessoas.


A ameaça é o afeto mais barato de produzir e o mais caro de desfazer. Quem a administra recebe em troca a projeção do salvador, aquilo que Jung denominou personalidade mana, e passa a ser ouvido como fonte do real. O epidemiologista oferece probabilidade, intervalo de confiança e uma recomendação incômoda. O pregador oferece inimigo, promessa e pertencimento. Diante da morte, a segunda oferta parece sempre a mais generosa.

Em 2022, o medo ganhou a forma de um templo fechado. O TSE determinou a remoção de 31 publicações que atribuíam a Lula o plano de perseguir cristãos e fechar igrejas. A primeira semana do segundo turno foi tomada por acusações de satanismo, e 16% dos evangélicos disseram ao Datafolha que seus pastores orientavam o voto no então presidente. Em 8 de janeiro de 2023, houve oração e hino entre os vidros quebrados das sedes dos Três Poderes.


Vale enfatizar que em nenhum desses episódios o fato esteve ausente. O Ministério da Educação desmentiu, a Justiça Eleitoral desmentiu, os epidemiologistas desmentiram. O desmentido não funcionou porque não disputava o mesmo terreno. Jung compreendeu esse estado como possessão: a Sombra, projetada no inimigo, toma o lugar do eu e passa a falar por ele. Quando um conteúdo coletivo possui um indivíduo, ele já não é indivíduo, torna-se o seu possuidor. Ainda assim, cerca de três em cada dez evangélicos declaravam voto no outro candidato em 2022, o que basta para lembrar que a máquina não é o rebanho.


Quem conhece a história da Europa reconhece o desenho. A cristandade medieval também foi uma realidade de base religiosa adensada pelo pânico, e nela o inimigo também era o possuído. Em 1096, a multidão que partiu para libertar Jerusalém começou massacrando as comunidades judaicas da Renânia. Em 1144, em Norwich, nasceu a acusação de que judeus matavam crianças cristãs em rituais, boato que atravessou séculos e fronteiras. Em 1209, a cruzada contra os cátaros passou Béziers a fio de espada. Em 1215, o Quarto Concílio de Latrão obrigou judeus e muçulmanos a usar sinais distintivos na roupa.


Quando a peste chegou, em 1347, o medo procurou um rosto. Correu o boato de que os judeus envenenavam os poços. O papa Clemente VI respondeu com o fato: os judeus morriam da mesma peste, e a doença grassava onde não havia judeu algum. Não adiantou. Em 14 de fevereiro de 1349, Estrasburgo queimou vivos centenas de seus judeus, antes mesmo que a peste alcançasse a cidade. Procissões de flagelantes cruzaram o continente carregando a penitência e, com ela, o contágio. Em 1374, multidões dançaram até a exaustão às margens do Reno, e a mesma Estrasburgo voltaria a dançar em 1518. A caça às bruxas, que atravessou o fim da Idade Média e avançou pelos séculos seguintes, completou o quadro.


Em Contágio Psíquico, reuni diversos episódios como esses em quatro padrões que se retroalimentam: crenças extremistas e literais, crises socioeconômicas e espirituais, delírios coletivos e comportamentos extáticos de massa. Os quatro reaparecem no segundo Brasil, e as correspondências são estruturais. Nos dois casos, a autoridade do pregador vale mais do que a evidência. Nos dois, a criança ameaçada é a imagem que dispara o pânico, do libelo de sangue de Norwich à mamadeira e ao kit das correntes de WhatsApp. Nos dois, a religião do outro é obra do demônio, e a epidemia é respondida com aglomeração devota.


Nos dois, trono e altar se fundem, lá na unção do rei, aqui em um lema de campanha que pôs Deus acima de todos. Nos dois, o bode expiatório, mecanismo estudado por Girard, organiza a comunidade e a dispensa de olhar para si. Não se trata de figura de linguagem. Em 2014, no Guarujá, uma mulher foi linchada por seus vizinhos depois que um boato de Facebook a confundiu com uma bruxa que sacrificaria crianças.


Há ainda uma correspondência mais profunda, que diz respeito à forma da realidade. A cristandade medieval admitia uma única. Quem via de outro modo não habitava outro mundo, estava em erro, e o nome desse erro era heresia, palavra que em grego significa escolha. Escolher era o crime. A fogueira foi o método pelo qual uma realidade única se defendeu da simples possibilidade de haver outra.


Há, contudo, uma diferença crucial, e ela agrava o quadro. A Europa medieval não dispunha de alternativa, pois não havia microscópio para contrapor ao sermão. O Brasil tem a Fiocruz e o feijão milagroso no mesmo fuso horário. Isso nos leva a crer que o imaginário medieval não é uma época, mas uma camada da psique, e que cada nova tecnologia de comunicação lhe oferece um corpo novo. A prensa lhe deu o panfleto e os manuais dos inquisidores. O algoritmo lhe deu o feed. Por isso venho chamando o nosso tempo de Idade Mídia: altamente tecnologizante, porém, essencialmente trevosa. As fogueiras de ontem são as telas luminosas de hoje.


Chegamos, então, ao mito que descreve a situação de quem ficou do lado do fato: Cassandra. Apolo deu-lhe o dom de ver e, ao ser rejeitado, acrescentou a maldição de que ninguém acreditaria nela. Ela viu o cavalo, viu o incêndio, viu a própria morte na casa de Agamêmnon. Disse tudo. Troia a tomou por louca e abriu os portões.


Quem faz parte do primeiro Brasil vive hoje esse conflito. Viu a curva de contágio antes dos enterros, viu o boato antes da urna, viu a enchente no relatório antes da água. Falou, publicou, mostrou o gráfico. Não foi ouvido, e a razão é mais dura do que a má vontade alheia. Se a realidade é o delírio coletivo consensual, quem fica com os fatos e perde o consenso está, tecnicamente, fora da realidade. Os números dizem o tamanho desse grupo: um em cada dez lê com proficiência, menos de dois em cada dez sabem nomear um lugar onde se faz ciência, e metade da população diz esbarrar em notícia falsa com muita frequência.


Essa é a parte difícil de crer, e é por isso que muitos do primeiro grupo ainda não creem. Continuam tratando o outro como desinformado, como se lhe faltasse um dado, quando o que lhe sobra é um mundo inteiro, coerente e habitado, com seus santos, seus demônios e suas provas. Lembremos dos internos de Bicêtre: se as premissas fossem verdadeiras, o discurso passaria por normal. Continuam também falando do centro, quando já falam da margem. A maldição de Cassandra nunca foi ver demais. Foi ter razão sozinha, em uma língua que a cidade deixou de falar.


O que torna essa posição insuportável é a forma que a realidade assumiu na atualidade. A realidade, hoje, é monoteísta. Ninguém mais pode aceitar que existam diversas realidades, cada uma com sua coerência, seus deuses e suas provas, nem cultivar a alteridade necessária para aprender com elas e transitar entre elas. O que importa agora é A realidade, com artigo definido e letra maiúscula, e cada grupo está certo de possuí-la. Hillman chamou de politeísta a psique capaz de hospedar muitas perspectivas sem reduzi-las a uma, em oposição ao monoteísmo da consciência, que só reconhece um centro e uma verdade. Como já apontei em outro momento, conhecer um único deus em nós é ficar à mercê somente dele, sem poder barganhar.


Os algoritmos, que prometiam pluralidade, entregaram o contrário. A multiplicação das bolhas não produziu politeísmo, produziu monoteísmos em série, cada qual com seu credo, seus hereges e sua fogueira. Voltamos, assim, ao hospital de Bicêtre, onde cada Napoleão considera o outro louco. Neste contexto, não há lugar para a segunda visão. Quem vê diferente não é recebido como um estrangeiro vindo de outra realidade, com quem se poderia aprender. É tratado como louco, mentiroso ou possuído. Vale a ressalva de que o primeiro grupo não está imune. Também ele costuma falar em nome d'A realidade, e quanto mais lúcido um povo se considera, mais certezas ele tem e menos consciência possui. Tudo o que propaga muita certeza é unilateral e diabólico, enquanto o simbólico reside na dúvida.


É possível convencer Troia? A resposta é não, ao menos não pelo caminho do fato lançado contra a muralha. Quem vai contra a corrente, sozinho, afoga-se nela. Resta a quem vê uma tarefa menos gloriosa e mais necessária: não se deixar possuir pelo papel. A Cassandra que se enfurece com Troia já foi contagiada pelo mesmo afeto que denuncia, e passa a precisar do incêndio para ter razão. Recuperar a alteridade, aprender a língua do outro mundo e transitar por ele sem abdicar do que se viu é o trabalho que o monoteísmo da realidade tornou raro, e é trabalho de Hermes, o deus que atravessa fronteiras. O fato precisa de imagem, de ritual e de vínculo para voltar a ser realidade, como a gota na boca de uma criança um dia foi.


Em Contágio Psíquico, defendi que, com frequência, é preciso ser um desviante minoritário para estar no real. A realidade não está paralisada para sempre, ela tem seu mistério e sua incerteza. Enquanto o consenso não se desfaz, sustentar o que se vê, sem ódio e sem esperança de aplauso, é a forma possível de consciência. Muitas vezes é necessário, na hora da tempestade, recolher-se à praia, permanecer atento aos ventos e reparar as redes e o casco do barco. O mundo continua lá, indiferente ao consenso, e é ele que apresenta a conta.


Referências


AÇÃO EDUCATIVA; CONHECIMENTO SOCIAL. Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) 2024. São Paulo: Ação Educativa, 2025.


BAUDRILLARD, Jean. À sombra das maiorias silenciosas: o fim do social e o surgimento das massas. São Paulo: Brasiliense, 1993.


BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D'Água, 1991.


CENTRO DE GESTÃO E ESTUDOS ESTRATÉGICOS. Percepção pública da C&T no Brasil 2023: resumo executivo. Brasília, DF: CGEE, 2024.


GIRARD, René. O bode expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.


HILLMAN, James. Re-vendo a psicologia. Petrópolis: Vozes, 2010.


IBGE. Censo Demográfico 2022: religiões: resultados preliminares da amostra. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.


IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: covid-19 2023. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.


JUNG, Carl Gustav. Aspectos do drama contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 2012. (Obra Completa, v. 10/2).


JUNG, Carl Gustav. Presente e futuro. Petrópolis: Vozes, 1989. (Obra Completa, v. 10/1).


TORRES, Leonardo. Contágio psíquico: a loucura das massas e suas reverberações na mídia. São Paulo: Eleva Cultural, 2024.

 
 
 

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