Carta Aberta: Função Transcendente e o Voto como equívoco da teoria
Nesta eleição polarizada reaparece no debate público a tentativa de levar para a urna uma categoria da psicologia analítica. Sustenta-se que a função transcendente de C. G. Jung fundamentaria a escolha entre dois candidatos à presidência, ou que legitimaria a busca de uma "terceira via", o voto nulo e a abstenção como formas de superar a polarização.
Como professor e estudioso de psicologia analítica venho mostrar para o leitor que há um mesmo equívoco de categoria: tomam por símbolo uma opção literal da cédula. A vida política está saturada de psique, de imagem, afeto e projeção, mas o símbolo que a função transcendente produz nasce do confronto de um Eu com o seu inconsciente e nunca coincide com uma alternativa já conhecida e disponível à escolha. O equívoco vale nos dois sentidos, e convém dizê-lo desde o início, porque a função transcendente não recomenda candidato algum, não recomenda o centro e tampouco recomenda a recusa.

A função transcendente "resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes" (Jung, 2013b, § 131) e recebe esse nome sem qualquer conotação metafísica, apenas porque "torna possível organicamente a passagem de uma atitude para outra, sem perda do inconsciente" (Jung, 2013b, § 145). O ponto de partida é o impasse de uma consciência unilateral, incapaz de responder a uma exigência da vida, e o consequente represamento da energia psíquica. Quando o Eu reconhece a antinomia e sustenta a tensão sem reprimir a posição contrária, o inconsciente responde com fantasias e imagens compensatórias, e do confronto entre o Eu e esse material nasce o símbolo, que reorganiza a distribuição da energia e desloca a personalidade para outra atitude (Jung, 2013b, § 181-189; 2013d, cap. XI, "Símbolo"). Os polos do processo são, portanto, a atitude consciente de um sujeito e a reação compensatória do seu inconsciente. Candidatos, partidos e programas de governo recebem projeções e carregam imagens, mas chegam ao eleitor como opções prontas, e opção pronta não é símbolo.
O ensaio de 1916 descreve, além disso, um procedimento, e não uma disposição de espírito. Parte-se de um afeto ou de um estado de ânimo perturbado, deixa-se que ele ganhe forma em imagem, escrita, desenho ou diálogo interior, e só então o Eu se confronta com o que surgiu, levando a sério a outra voz sem abdicar da sua (Jung, 2013b, § 167-189). Esse critério basta para desmontar o uso político do conceito. Quem afirma que seu voto, ou sua recusa de votar, exprime a função transcendente deveria poder indicar qual foi o material inconsciente, qual foi a imagem e qual foi o confronto. Onde só há a comparação de dois nomes e a insatisfação com ambos, há juízo, cansaço, repulsa ou cálculo, todos atos legítimos da consciência, e nenhum deles é função transcendente.
O mal-entendido se alimenta de uma expressão. Jung escreve:
A confrontação entre as posições contrárias gera uma tensão carregada de energia que produz algo de vivo, um terceiro elemento que não é um aborto lógico, consoante o princípio: tertium non datur [...], mas um deslocamento a partir da suspensão entre os opostos e que leva a um novo nível de ser, a uma nova situação (Jung, 2013b, § 189).
O terceiro de que ela fala não se acrescenta à lista das alternativas, ele altera aquele que escolhe. Uma terceira candidatura, o voto nulo e a abstenção são alternativas do mesmo plano que as duas primeiras, igualmente conhecidas; disponíveis à vontade e previstas pela regra do jogo. São opções literais, e o terceiro de Jung é um símbolo.
Em Tipos psicológicos, a distinção é explícita. O símbolo vivo é a melhor expressão possível de algo ainda relativamente desconhecido, e a expressão que designa uma coisa conhecida é sinal ou alegoria (Jung, 2013d, cap. XI, "Símbolo"). Um candidato, uma legenda e um programa são coisas conhecidas, têm biografia, alianças, financiadores e plano de governo. Já um símbolo não se escolhe. Ele se impõe à consciência depois que a vontade, igualmente solicitada pelos dois lados, se detém, e por isso não pode ser registrado na Justiça Eleitoral nem lançado em convenção partidária. Tratar uma opção da cédula como símbolo unificador é tomar o sinal pelo símbolo e a imagem pelo fato, erro contra o qual a psicologia arquetípica adverte há décadas sob o nome de literalização (Hillman, 2010).
Há ainda uma confusão entre o terceiro e o meio-termo. O centro político é uma média, obtida por subtração do que cada polo tem de extremo, ao passo que o produto da função transcendente não fica a meio caminho entre tese e antítese, contém as duas e as ultrapassa. A recusa de votar apresentada como transcendência padece do defeito inverso. A função transcendente exige que as duas posições recebam valor pleno e que o Eu suporte o conflito até o fim, e quem declara que nenhum dos lados lhe diz respeito não sustentou a tensão, saiu dela. O "nem um nem outro" é a forma mais econômica de escapar ao sofrimento dos opostos, e o símbolo só nasce desse sofrimento.
O símbolo não obedece a calendário, chega quando chega, e os alquimistas que Jung tanto estudou diziam que a obra só se cumpre Deo concedente. A eleição tem data, hora de encerramento e prazo de apuração. Um processo que não pode ser agendado não tem como fundamentar uma decisão com dia marcado, e quem espera pelo símbolo para votar descobrirá, no domingo da eleição, que precisa decidir com o que tem: informação, valores, memória e responsabilidade.
A própria obra de Jung nomeia o lugar desse terceiro. Ao comentar a querela dos universais, ele recusa tanto o esse in intellectu, que carece de realidade tangível, quanto o esse in re, que carece de espírito, e propõe entre ambos o esse in anima, a realidade psíquica em que ideia e coisa se encontram (Jung, 2013d). O terceiro junguiano é a alma. A urna pertence ao esse in re, é coisa entre coisas, e nela se depositam atos do Eu, nunca símbolos.
A objeção mais séria a essa tese vem do próprio Jung, que jamais separou por completo o conflito interior do conflito do mundo. Em Aion, ele afirma que a situação interior não conscientizada acontece fora, como destino, e que o mundo se cinde em duas metades quando o indivíduo não toma consciência da própria antinomia (Jung, 2013a). No ensaio sobre a função transcendente, observa que a capacidade de diálogo interior é a medida da objetividade exterior, pois quem nega validade ao outro nega o direito de existir ao outro que traz em si (Jung, 2013b).
O caminho vai do indivíduo ao mundo e passa pela retirada das projeções, sem atalho institucional que dispense esse trabalho. A função transcendente pode transformar a personalidade, torná-la capaz de ouvir o adversário sem demonizá-lo e de votar sem esperar do eleito a salvação. Essa transformação, porém, não retira do indivíduo o dever do voto nem lhe entrega uma opção nova. Muda quem vota, e as alternativas permanecem literais.
Poder-se-ia insistir que Jung reconhece símbolos de contexto coletivo. Reconhece, e eles nascem em indivíduos para só depois serem acolhidos pela coletividade, que não os elege por maioria. Uma massa não tem um Eu que sustente a tensão dos opostos, e a experiência em grupo se dá em nível de consciência mais baixo que a do indivíduo (Jung, 2014, § 225-228), de modo que não existe sujeito coletivo capaz de realizar uma função transcendente.
Quando um político passa a ocupar o lugar do símbolo unificador, Jung não fala em individuação da nação, fala em possessão e em projeção da figura do salvador, como nos ensaios escritos diante da catástrofe alemã (Jung, 2012b). E quando procurou, em plena Guerra Fria, a resposta do inconsciente à cisão política do planeta, encontrou-a em um boato visionário, nos objetos redondos vistos no céu, mandalas espontâneas de uma humanidade dividida (Jung, 2013e). O símbolo coletivo de totalidade apareceu no céu, sem partido e sem programa, o que diz bastante sobre onde não procurá-lo.
Há também a objeção da psicologia pós-junguiana, que recusa a própria fronteira entre psique e política. Andrew Samuels (1993) sustenta que não há psique apolítica e que a pessoa tem um desenvolvimento político tão real quanto o afetivo. Singer e Kimbles (2004) descrevem complexos culturais, com memória, afeto e defesas próprios de um grupo. E Hillman, aqui invocado contra a literalização, dedicou décadas a devolver a alma ao mundo e a criticar uma psicoterapia que a confinou ao interior do indivíduo (Hillman; Ventura, 1995). Essas posições não atingem a tese, porque o equívoco aqui apontado nunca esteve em reconhecer psique na vida política. Ele está em tomar por símbolo uma opção literal da cédula.
Nenhum desses autores afirma que a função transcendente escolhe um candidato. Samuels quer levar a subjetividade do cidadão à esfera pública, sem delegar ao inconsciente a decisão. O complexo cultural descreve a possessão de um grupo por seus afetos, o contrário da produção de um símbolo. E a alma do mundo de Hillman convoca o cidadão ao engajamento, de modo que serve mal a quem pretende justificar a retirada.
A transposição indevida tem ainda um custo psíquico, que o texto de Jung permite descrever: quem projeta na arena política seus conflitos não resolvidos tende a repartir os candidatos entre a luz e a sombra, o salvador e o demônio. Quem se declara acima da disputa em nome de uma síntese superior corre o risco simétrico, formulado por Jung com precisão: "Se o indivíduo é, porém, suficientemente autônomo para reconhecer a estupidez do 'ismo' social, ele se acha sob a ameaça de uma inflação subjetiva [...]" (Jung, 2013b, § 426). Trata-se de risco, e não de sentença.
O voto nulo e a abstenção são atos do Eu como quaisquer outros, sujeitos às mesmas razões e à mesma prestação de contas. O que não lhes cabe é o título de função transcendente, porque o título converte uma decisão discutível em sinal de maior desenvolvimento psíquico, e é nessa conversão que a inflação se instala (Jung, 2015, § 221-242).
Tampouco a individuação serve de álibi para a retirada. Jung a distingue do individualismo, que acentua supostas peculiaridades contra as obrigações coletivas, e a define como realização mais completa das qualidades coletivas do ser humano (Jung, 2015, § 267). Afirma que ela não exclui o mundo, antes o inclui (Jung, 2013b, § 432), e que tem dois aspectos igualmente indispensáveis, um processo interior de integração e um processo objetivo de relação (Jung, 2012a, § 448). No seminário sobre o Zaratustra, a mesma ideia aparece sem ornamento:
A individuação só é possível com pessoas, por meio de pessoas. Devemos perceber que somos um elo em uma corrente, que não somos um eléctron suspenso em algum lugar no espaço ou vagando sem rumo pelo cosmos. Somos parte de uma estrutura atômica, e essa estrutura atômica é parte de uma molécula que, com outras, compõe um corpo. A vida é um continuum, e nada fica totalmente separado de um homem dentro do continuum vivo; uma coisa dessas instantaneamente morreria e seria jogada fora. Na medida em que vivemos, estamos no continuum da vida. Se pensamos estar separados, isso nada mais é do que uma imaginação neurótica, e, evidentemente, isso é mórbido (Jung, 1988).
Individuação e participação democrática são, assim, ordens distintas que se tocam em um único ponto, o indivíduo. A primeira visa à totalidade da pessoa e à sua diferenciação em relação à psique de massa. A segunda pertence à adaptação à coletividade e à preservação dos direitos e das liberdades civis, e Jung a trata, em Presente e futuro, como questão de responsabilidade do indivíduo diante do Estado e da massa (Jung, 2013c).
Confundi-las prejudica as duas, pois retira da individuação a sua profundidade interior e retira da ação política o seu caráter pragmático e ético. O vocabulário de tese, antítese e síntese que costuma acompanhar o uso político do conceito vem, aliás, de outra tradição. Quem busca uma dialética do social e da história a encontrará em Hegel e em seus herdeiros, com instrumentos próprios para instituições, classes e Estados, e Jung fez questão de se distinguir dessa linhagem, em cuja linguagem via uma irrupção do inconsciente na filosofia (Jung, 2013b, § 358-360).
Resta dizer o que a função transcendente pode de fato fazer por quem se encontra dividido diante de uma eleição. Se o impasse é verdadeiro, se tira o sono e mobiliza afeto, ele é matéria legítima de trabalho psíquico, e o inconsciente provavelmente terá algo a dizer sobre o medo, o ódio ou a esperança desmedida que a disputa despertou. Desse trabalho pode sair uma personalidade menos possuída, mais capaz de distinguir o adversário do demônio e o eleito do salvador.
O símbolo, quando vem, muda quem vota e deixa intacto o que há para votar, pois a cédula continua com as mesmas opções literais. A assimilação do inconsciente pede conjunção, e o voto exige disjunção, uma tomada de posição discriminada entre alternativas finitas, com responsabilidade pelas consequências. Jung escreveu que a resistência à massa organizada só pode vir de quem é tão organizado em sua individualidade quanto a própria massa (Jung, 2013c, § 540). Essa organização interior é a contribuição que a psicologia analítica oferece à democracia. Ela prepara a personalidade e deixa a ela, inteira, a tarefa de decidir.
Referências
HILLMAN, James. Re-vendo a psicologia. Petrópolis: Vozes, 2010.
HILLMAN, James; VENTURA, Michael. Cem anos de psicoterapia... e o mundo está cada vez pior. São Paulo: Summus, 1995.
JUNG, C. G. Nietzsche's Zarathustra: notes of the seminar given in 1934-1939. Edited by James L. Jarrett. Princeton: Princeton University Press, 1988. v. 1.
JUNG, C. G. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência. Petrópolis: Vozes, 2012a. (Obras Completas, v. 16/2).
JUNG, C. G. Aspectos do drama contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 2012b. (Obras Completas, v. 10/2).
JUNG, C. G. Aion: estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013a. (Obras Completas, v. 9/2).
JUNG, C. G. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2013b. (Obras Completas, v. 8/2).
JUNG, C. G. Presente e futuro. Petrópolis: Vozes, 2013c. (Obras Completas, v. 10/1).
JUNG, C. G. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013d. (Obras Completas, v. 6).
JUNG, C. G. Um mito moderno sobre coisas vistas no céu. Petrópolis: Vozes, 2013e. (Obras Completas, v. 10/4).
JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014. (Obras Completas, v. 9/1).
JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015. (Obras Completas, v. 7/2).
SAMUELS, Andrew. The political psyche. London: Routledge, 1993.
SINGER, Thomas; KIMBLES, Samuel L. (ed.). The cultural complex: contemporary Jungian perspectives on psyche and society. Hove: Brunner-Routledge, 2004.



Não tenho vocabulario p elogiar e agradecer a aula de conceitos junguianos e de cidadania.zmuiyo grata Leo!!!